O
PT está disposto a fazer sacrifícios?
Não temos o direito de não fazer sacrifício
e permitir que o desejo pessoal de alguém prevaleça
sobre os interesses coletivos de um partido, seja estadual
ou nacional. É preciso um debate para saber o
seguinte: o que nos interessa neste momento? Quais os
Estados que temos de disputar, em quais temos chances?
Que tipo de aliança poderemos fazer e o que queremos
construir? Se fizermos essa discussão corretamente,
fica fácil construir as alianças. É
preciso construir um time que vá do goleiro ao
ponta-esquerda para trabalhar junto nessa campanha.
Essa minha concepção vale do Oiapoque
ao Chuí. Mas quem decide isso são os partidos.
Só espero que as pessoas tenham aprendido.
Como
o senhor vê a ideia de o PT abrir mão da
candidatura ao governo de SP em favor do deputado Ciro
Gomes (PSB)?
O Ciro tem todas as condições de ser candidato
em qualquer lugar do Brasil. Por enquanto, só
vejo especulação, nada sério. Mas
acho que o Ciro daria trabalho em São Paulo.
Esta
semana o senhor criticou a imprensa por dar tanto espaço
à crise no Senado. O senhor segue apoiando o
senador José Sarney ou defende o afastamento
dele da presidência da Casa?
Não critico a imprensa por conta do Senado. É
pelo denuncismo desvairado que, às vezes, não
tem retorno. Há uma prevalência da desgraça
sobre as coisas boas. Talvez venda mais jornal. Citei
um jornal quando fiz a crítica. Você tinha
a volta do crescimento do emprego, cento e poucas mil
vagas criadas. E a manchete era desse tamanho (faz um
gesto com as duas mãos para indicar altura) sobre
um emprego equivocado no Senado. Os milhares de empregos
criados estavam numa notícia secundária.
A nação precisa de boas notícias,
de autoestima, para poder vencer esse embate com a crise
internacional. Sobre as denúncias no Senado,
que se faça investigação. Quem
estiver errado deve ser punido. Todos os senadores têm
mais de 35 anos de idade, estão na idade adulta.
O Sarney já anunciou que vai investigar.
A
defesa que o senhor faz de Sarney tem a ver com a eleição
de 2010? A crise do Senado pode agravar a relação
com o PMDB, que já não anda boa?
Não acho que algum senador vá renunciar
ao mandato. Eles vão se acertar e prestar contas.
A minha cabeça não trabalha pensando em
2010. Agora, tenho clareza de que nós saíremos
bem em 2010 se a gente estiver bem em 2009.
O
vice ideal para Dilma seria do PMDB?
Vamos discutir isso. Veja a importância do PMDB
no Brasil, um partido que tem mais vereadores, mais
deputados, mais senadores, mais governadores. Tem um
potencial muito grande. Mas não é apenas
isso que credencia alguém para ser vice. Primeiro,
o vice tem que ser da concordância de quem vai
ser candidato a presidente. Você não pode
ter um vice que não tenha uma afinidade política,
ideológica e visão de Brasil.
O
senhor tem acompanhado o tratamento da ministra Dilma.
Como ela está? Há riscos de prejuízo
à campanha dela?
Por tudo que tenho conversado com os médicos,
não acredito (em prejuízos). Mas doença
é doença. No momento certo, o médico
vai dizer se parou ou não o tratamento. A Dilma
tem trabalhado a mesma coisa. Ela tem um ou dois dias
por semana que se sente mais cansada, depois da quimioterapia,
e diminui um pouquinho o ritmo. Todo mundo que já
teve esse tipo de câncer diz que é curável.
A Dilma vai ficar extraordinária e a hora que
tiver que anunciar estará pronta para o embate.
Se for candidata mesmo – depende ainda dos partidos
e dela própria –, a partir de março
se afasta e começa a campanha.
Quem
vai para o lugar dela? O ex-ministro Antonio Palocci?
Não, não. Não posso discutir agora
o que vou fazer. Mas não pretendo colocar nenhum
ministro novo no governo.
Pelo
menos 14 ministros devem sair até abril para
concorrer nas eleições. Como o senhor
pretende conduzir as substituições: com
indicações políticas ou recorrendo
a técnicos?
Não vou trazer uma pessoa para chegar sem conhecer
o histórico do próprio ministério,
das obras, dos projetos. Desse jeito, irei paralisar
o governo por dez meses. Na hora que o ministro for
saindo, o secretário executivo assume e vai tocando.
Não quero mexer no andamento das coisas que estamos
fazendo.
Na
oposição, o senhor e o PT criticavam muito
o antecessor, Fernando Henrique por viajar demais. Nenhum
presidente colocou o Brasil tão em evidência
como o senhor nessas missões internacionais.
O que mudou e qual a utilidade desse trabalho?
Mas se você pegar o meu discurso verá que
eu dizia: “Ele (Fernando Henrique) tem o direito
de viajar pra fora, o que é lamentável
é que ele não viaje aqui dentro”.
E viajo muito lá fora e viajo muito aqui dentro.
É inexorável. O número de aliados
que o Brasil estabeleceu nesses seis anos é muito
grande. As pessoas querem ouvir o Brasil.
Qual
é a utilidade desse seu trabalho no exterior?
O momento histórico me deu essa projeção.
Nós levamos cinco anos para poder consolidar
o Bric (grupo formado pelos grandes países emergentes
– Brasil, Rússsia, Índia e China)
como uma instituição. Vamos ter a segunda
reunião no Brasil no final do ano que vem. O
Brasil está muito importante. Lembro quantas
críticas recebi quando fiz a primeira viagem
à África. “Mas por que na África?
Não tem nada para vender na África.”
Pergunta ao ministro (da Indústria e Comércio)
Miguel Jorge, que voltou com uma caravana empresarial
da África agora. A gente não tem o que
vender é para a Alemanha, Suécia, EUA,
porque precisa mais valor agregado, competitividade
tecnológica. Mas para a África, América
Latina, parte do mundo asiático e para o mundo
árabe, o Brasil só tem é que vender.
O
senhor vai encerrar o seu governo sem a reforma política
e sem a reforma tributária?
Mandei as duas para o Congresso. Não sei quantos
anos tenho de vida, mas quero estar perto para ver o
dia em que alguns empresários disserem que é
preciso fazer reforma tributária. O DEM fez da
reforma tributária a bandeira dele. Mas eles
não querem. Mandei duas propostas. Em abril de
2003 e outra no ano passado. Quando fazemos as reuniões
com governadores, prefeitos e empresários, todo
mundo concorda. Quando chega no Congresso, ninguém
concorda mais.
O
senhor tem dito que quer ser um cidadão do mundo
depois de 2010. O presidente Barack Obama disse que
o senhor é ‘o cara’. Ele seria o
seu cabo eleitoral para o senhor ocupar um espaço
na ONU, Banco Mundial? Qual é o seu desejo pessoal?
Quando falei cidadão do mundo, me perguntaram
o que queria fazer. Não tenho pretensões.
A minha maior pretensão agora é ver se
eu pago a promessa que eu fiz para Dona Marisa em 1978.
Ela queria que eu deixasse o sindicato e prometi que
era o último mandato e que, depois, ia me dedicar
à família. Já são 31 anos
e não consegui. Pretendo me voltar um pouco para
a família. Também não quer dizer
que vá deixar de fazer política. Gostaria
de trabalhar muito essa questão de integração
da América Latina, da África. Acho que
precisamos cuidar com muito carinho da África.
Por isso, estou indo pra lá no dia 1º, na
Cúpula Africana, na Líbia.
Mas
com essa popularidade que o senhor tem, será
que na eleição de 2014 a dona Marisa resiste?
Pesa mais do que uma pressão para que o senhor
volte a disputar a Presidência?
Tenho que recusar discutir 2014, porque não seria
benéfico para mim e para quem quero eleger. Vamos
supor que eu eleja a companheira Dilma a candidata do
PT e o povo brasileiro eleja a Dilma presidente do País.
Ora, qual é o meu papel? Trabalhar para que ela
faça o máximo possível e ela tem
o direito de querer ser candidata à reeleição.
Senão, o que acontece? Se eu não tiver
essa consciência de que ela tem de fazer mais
e fazer melhor, fazer o governo dela sem tutela e patrulhamento
de ninguém, sem saudosismos, você tira
a possibilidade de uma grande mulher fazer um grande
governo. Mas ela ficar no governo vendo que eu sou sombra,
“ah, em 2014 ele vai voltar”... Vou torcer
para que ela possa fazer o melhor e ser candidata à
reeleição. Se for um adversário
que ganhe, aí sim pode estar previsto em 2014
eu voltar. Depende.
Há
uma posição de que as pessoas beneficiadas
com o Bolsa-Família não saem do sistema.
Estaria faltando um segundo passo, para as pessoas recuperem
a cidadania?
Essa visão elitista dos brasileiros é
responsável por mais de um século de empobrecimento
generalizado. Com o Programa Luz para Todos, 83% das
pessoas que receberam energia compraram televisão,
79% geladeira, 44% aparelho de som, 44% voltaram a estudar
à noite. Alguém que nasceu na avenida
Copacabana, que nunca teve problema, acha que R$ 80
é pouco, mas para um pobre é muito. À
medida que a economia vai crescendo, as pessoas vão
deixando o Bolsa-Família e deixam outros entrarem.
600 mil já deixaram o programa.
O
senhor vai ampliar o prazo de redução
do IPI?
Não posso falar porque as empresas estão
falando por aí: “Compre seu carro logo”.
Falando em política tributária, imposto
e política social, quero dar uma explicação
lógica. Todos queremos que o Brasil tenha uma
política tributária muito mais simplificada.
O ideal é que a gente aumente o número
de contribuintes. A carga tributária brasileira
não é algo a ser comparado com os países
desenvolvidos. Num País que tem 10% de carga
tributária, não há Estado. Pode
mapear quais são os países. A política
social é extremamente importante porque por mais
de 20 anos se discutiu no Brasil se a gente deveria
distribuir para crescer ou crescer para distribuir.
Começamos a fazer os dois juntos e o resultado
foi extraordinário. A ascensão dessa molecada
por conta do ProUni: são 545 mil jovens da periferia
na universidade, 40% deles negros. A política
social é uma coisa barata, ela perpassa a ignorância,
a violência. Na hora em que o pobre tem uma ajuda,
todo mundo vai melhor, vai ter menos bandido, menos
violência.
A
oposição ganharia se usasse esse discurso?
Não sei, porque não é só
o discurso, é preciso olhar nos olhos das pessoas.
O
senhor acha que a oposição torceu para
que a crise afetasse o Brasil?
Torceu e muito. Teve gente que até acendeu vela.
Houve
gente que queimou os dedos?
Uns queimaram a língua, outros queimaram os dedos.
Quando deixar o governo, vou montar um grupo para pesquisar
as análises econômicas que fizeram sobre
o meu governo, para saber quem errou e acertou. Sobre
a crise, ninguém precisou explicar porque ela
era internacional. Tivemos dois momentos da crise. Em
setembro do ano passado eu estava no Panamá quando
surgiram os primeiros sinais. Voltei, fiz várias
reuniões com economistas, analisamos e percebemos
que a crise chegaria muito pequena no Brasil. Até
que desapareceu o crédito no mundo inteiro. Tomamos
todas as medidas necessárias e somos reconhecidos
no mundo inteiro.
É
por essa questão de orgulho que o senhor não
quer que a Petrobras sofra uma CPI?
Se tem um fato determinado, diga e faça a CPI.
O que não pode é, de forma irresponsável,
pegar a mais importante empresa do País e tentar,
um ano antes das eleições, achincalhar.
Numa CPI sem fato determinado, vale tudo. Se tiver de
fazer, o que queremos é uma coisa séria.
O que se propôs não tem nada de seriedade.
O
que incomoda o senhor na CPI são os investimentos
da Petrobras, que podem ser prejudicados, ou é
o caráter eleitoral?
Acho que CPI não pode ser feita para fins apenas
de disputa eleitorais. É não respeitar
o País. Agora, a CPI é um instrumento
da oposição em qualquer lugar do mundo.
Estamos em uma crise econômica profunda, em que
a Petrobras teve dificuldades para pegar dinheiro emprestado
lá fora. Se uma empresa como a Petrobras encontra
dificuldades em arrumar dinheiro, fico imaginando se
começar um processo de achincalhamento. O denuncismo
é isso. Acho que a Petrobras deveria ser investigada
pelo Tribunal de Contas da União e pelo Ministério
Público.
O
ministro Tarso Genro tem defendido a punição
dos torturadores do regime militar. Ele faz isso com
o aval do senhor ou é uma posição
pessoal dele?
É uma tese do Tarso. No governo, temos pessoas
que pensam diferente.
E
o senhor?
Não sou jurista (risos).