Discreto,
quase cerimonioso, o ministro do Desenvolvimento Social
e Combate à Fome, Patrus Ananias, não esconde
mais de ninguém: quer ser o próximo governador
de Minas Gerais. Antes, porém, tem muitos desafios
pela frente. A começar dentro do próprio
Partido dos Trabalhadores (PT), onde provavelmente vai
disputar a indicação prévia com o
ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Mas
Patrus diz que não se sente intimidado. “Aquele
que for ungido candidato expressará o sentimento
majoritário do partido.” Fora do PT, o ministro
ainda tenta convencer o PMDB que já tem o ministro
das Comunicações, Hélio Costa, no
mesmo páreo a entrar com ele na disputa. Isso,
claro, sem falar nas articulações para viabilizar
a candidatura da ministra Dilma Rousseff à Presidência
da República, que poderiam até mudar os
rumos das pretensões políticas dos petistas
de Minas Gerais.
A
seu favor, o ministro Patrus tem o currículo
ele já foi vereador, prefeito de Belo Horizonte
e deputado federal e atualmente comanda o principal
programa social do governo que já atende mais
de 11 milhões de famílias em todo o Brasil.
Mais de um milhão em Minas Gerais. Em seu gabinete,
em Brasília, o ministro Patrus conversou com
a revista Viver Brasil sobre todos esses assuntos.
Partidários
do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel,
dizem que ele tem o controle do PT mineiro e que isso
inviabilizaria a candidatura do sr. ao governo do estado.
É
uma avaliação deles e eu respeito. Continuo,
entretanto, como pré-candidato ao governo de
Minas, percorrendo o estado e discutindo junto às
bases. Os momentos em que não estou vinculado
às ações do ministério,
estamos fazendo um grande debate com todos segmentos
para levar um projeto ousado, generoso, mas viável
de desenvolvimento integral e integrado para Minas Gerais.
Fernando
Pimentel afirmou que, na época da escolha do
candidato a prefeito de Belo Horizonte o PT não
tinha um nome forte e o sr. não quis entrar na
disputa e que depois saiu criticando a composição
com o PSDB.
Eu
preferiria virar essa página porque hoje nós
temos um prefeito eleito, Márcio Lacerda, com
quem nós estamos estabelecendo excelente relação
de cooperação. Mas, em atenção
aos leitores, para que fique bem claro, e sem querer
nenhuma polêmica, eu não coloquei o meu
nome para ser candidato a prefeito de Belo Horizonte
porque eu estou como ministro de Desenvolvimento Social
e Combate à Fome. Esse ministério atende
hoje mais de 60 milhões de pessoas pobres. Eu
optei por ficar no ministério em face das responsabilidades
que assumi com o presidente Lula, com a sociedade brasileira,
com os pobres do Brasil, inclusive de Minas Gerais,
porque grande parte das políticas sociais em
todo o país foram implementadas com recursos
desse ministério.
Hoje existem dois PTs em Minas Gerais.
É
possível unir o partido novamente?
Não existem dois PTs em Minas Gerais. Existe
um único Partido dos Trabalhadores que estará
no próximo ano completando 30 anos de existência
e eu participei intensamente desses anos. O PT é
um partido democrático, plural, que comporta,
e mais do que comporta, estimula diferenças,
divergências. É claro que entre nós
há pessoas que pensam diferente, mas as afinidades
são muito maiores. As diferenças são
localizadas, são específicas. Agora eu
penso que elas devem ser explicitadas. Quando acontecem
prévias nos Estados Unidos – como foi com
o Democrata ou mesmo quando o governador de Minas propõe
prévias no PSDB, as prévias são
consideradas bonitas. No PT é sempre visto como
uma cisão. Não é cisão.
Então o sr. acha que o PT vai chegar
unido nas eleições? Os petistas do grupo
do Pimentel vão tomar cerveja numa mesma mesa
com os petistas do grupo do sr.?
Da minha parte nós continuamos tomando cerveja
juntos. Eu tenho a melhor e mais fraterna relação
com o ex-prefeito. Nós devemos cada vez mais
tornar realidade em Minas aquilo que dizem a nosso respeito:
em Minas as ideias disputam, os projetos disputam, as
pessoas se respeitam e convivem. Quando eu fui candidato
em 1992 teve prévias no partido. Eu disputei
com meus fraternos amigos Thomaz Matta Machado e Rogério
Correia e, no dia seguinte às prévias,
nós estávamos juntos, ombroa ombro, dando
entrevista coletiva e iniciando a caminhada da era dos
governos progressistas.
Existe, de fato, a possibilidade de fechar aquele
acordo com o PMDB, no qual quem estiver melhor nas pesquisas
na época das convenções –
o sr. ou o ministro Hélio Costa – sai na
cabeça-de-chapa?
Eu não quero entrar em muito detalhe de como
deve ser feito. Acho que é muito cedo ainda,
estamos a um ano e meio das eleições.
Mas há um interesse nosso em buscar uma aliança
com o PMDB. Na perspectiva de 2010, em Minas Gerais,
eu penso que a nossa dinâmica deve ser primeiro
garantir a unidade do Partido dos Trabalhadores; segundo
garantir a unidade das forças democráticas,
populares e progressistas. E nesta mesma linha, ampliar
no sentido de incorporar, na medida do possível,
todos os partidos da base aliada, onde o PMDB ocupa
lugar de destaque. Eu tenho diálogo permanente
com o ministro Hélio Costa, tenho conversado
com parlamentares, lideranças do PMDB, estamos
inclusive discutindo um projeto de desenvolvimento para
Minas Gerais e penso que nós devemos envidar
todos os esforços para estarmos juntos em 2010.
O sr. acredita que Minas Gerais pode ter dois
palanques (do PT e do PMDB) para a candidata Dilma?
Acho que não seria aconselhável.
Penso que as forças que hoje apoiam o presidente
Lula, para ganhar as eleições em Minas
Gerais, devem trabalhar na perspectiva da unidade. Dois
palanques em Minas não será bom para as
forças que querem fazer avançar o projeto
democrático-social no estado e também
talvez não seja bom para a própria candidata
Dilma.
E se o vice da candidata Dilma for do PMDB e
o PT nacional decidir que o PT de Minas não deve
lançar candidato ao governo do estado?
Essa decisão deve ser cumprida?
Essa é uma questão que não está
posta ainda. Isso faz parte do processo. Eu acho que
neste momento é importante que os partidos apresentem
seus nomes, até para mobilizar as nossas bases,
nossos filiados, simpatizantes para estabelecermos o
mais amplo diálogo com a sociedade mineira e
brasileira. E no processo nós vamos conversando
e há um prazo para que as coisas sejam definidas
Com
a doença da ministra Dilma o sr. acha que muda
alguma coisa na sucessão presidencial, já
que outros nomes inclusive o do sr. já começam
a ser especulados como alternativas do PT?
A ministra Dilma está muito bem do ponto de vista
físico, psíquico e emocional. Ela está
enfrentando uma doença que hoje é perfeitamente
tratável. Penso, inclusive, que é um desrespeito
com a ministra Dilma nós tratarmos desse assunto.
Ela é mais do que a candidata do presidente Lula.
Ela é, hoje, podemos dizer, a candidata do PT,
que certamente vai unificar em torno de seu nome as
forças políticas e sociais que apoiam
o governo do presidente Lula. Quanto a mim, eu sou pré-candidato
ao governo de Minas Gerais.
O
PSDB diz que vai realizar prévias para escolher
o candidato à Presidência da República.
O PT deveria fazer o mesmo?
No PT a nossa candidata está definida: é
a ministra Dilma Rousseff. Eu não vejo que as
prévias sejam uma solução mágica
e também que elas sejam um problema. Elas podem
ou não ser utilizadas. É um instrumento.
Se há um consenso em torno de um nome, o processo
vai normalmente por meio das instâncias partidárias,
se existem algumas divergências eu penso que o
processo das prévias é absolutamente legítimo.
O sr. comanda o principal programa social do
governo Lula, que atende quase 53 milhões de
pessoas em todo o Brasil, mas que também é
alvo de muitas críticas da oposição
como, por exemplo, a de que é um programa eleitoreiro.
O que pensa sobre essas críticas?
Primeiro, eu tenho ouvido de setores da oposição
manifestações muito elogiosas às
ações do Ministério de Desenvolvimento
Social e Combate à Fome e aos nossos programas,
especialmente ao Bolsa- Família. Eu considero
que as críticas mais duras são cada vez
mais minoritárias e localizadas.
O que o ministério tem feito para evitar
fraudes como as de pessoas que conseguem o benefício
mesmo não possuindo os pré-requisitos
necessários?
Nós temos convênios e parcerias com os
Ministérios Públicos estaduais e federal
e medidas concretas já foram e estão sendo
tomadas. O cadastro único hoje é uma grande
conquista da sociedade brasileira, porque temos o mapeamento
dos pobres possibilitando, inclusive, uma maior integração
das obras e das políticas sociais. É um
cadastro que vai além do Bolsa-Família
porque trabalha com a linha de renda de até três
salários mínimos, são 16,5 milhões
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