21/05/2009
 
Entrevista
 
Do bolsa-família para o governo de minas
 

O Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, diz que é pré-candidato a governador de Minas Gerais pelo PT em uma provável disputa com o ex-prefeito de BH, Fernando Pimentel, e afirma ser fundamental uma aliança com o PMDB. “Tenho diálogo permanente com o ministro Hélio Costa”.

VEJA O CONVITEDiscreto, quase cerimonioso, o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, não esconde mais de ninguém: quer ser o próximo governador de Minas Gerais. Antes, porém, tem muitos desafios pela frente. A começar dentro do próprio Partido dos Trabalhadores (PT), onde provavelmente vai disputar a indicação prévia com o ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Mas Patrus diz que não se sente intimidado. “Aquele que for ungido candidato expressará o sentimento majoritário do partido.” Fora do PT, o ministro ainda tenta convencer o PMDB que já tem o ministro das Comunicações, Hélio Costa, no mesmo páreo a entrar com ele na disputa. Isso, claro, sem falar nas articulações para viabilizar a candidatura da ministra Dilma Rousseff à Presidência da República, que poderiam até mudar os rumos das pretensões políticas dos petistas de Minas Gerais.

A seu favor, o ministro Patrus tem o currículo ele já foi vereador, prefeito de Belo Horizonte e deputado federal e atualmente comanda o principal programa social do governo que já atende mais de 11 milhões de famílias em todo o Brasil. Mais de um milhão em Minas Gerais. Em seu gabinete, em Brasília, o ministro Patrus conversou com a revista Viver Brasil sobre todos esses assuntos.

Partidários do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, dizem que ele tem o controle do PT mineiro e que isso inviabilizaria a candidatura do sr. ao governo do estado.

É uma avaliação deles e eu respeito. Continuo, entretanto, como pré-candidato ao governo de Minas, percorrendo o estado e discutindo junto às bases. Os momentos em que não estou vinculado às ações do ministério, estamos fazendo um grande debate com todos segmentos para levar um projeto ousado, generoso, mas viável de desenvolvimento integral e integrado para Minas Gerais.

Fernando Pimentel afirmou que, na época da escolha do candidato a prefeito de Belo Horizonte o PT não tinha um nome forte e o sr. não quis entrar na disputa e que depois saiu criticando a composição com o PSDB.

Eu preferiria virar essa página porque hoje nós temos um prefeito eleito, Márcio Lacerda, com quem nós estamos estabelecendo excelente relação de cooperação. Mas, em atenção aos leitores, para que fique bem claro, e sem querer nenhuma polêmica, eu não coloquei o meu nome para ser candidato a prefeito de Belo Horizonte porque eu estou como ministro de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Esse ministério atende hoje mais de 60 milhões de pessoas pobres. Eu optei por ficar no ministério em face das responsabilidades que assumi com o presidente Lula, com a sociedade brasileira, com os pobres do Brasil, inclusive de Minas Gerais, porque grande parte das políticas sociais em todo o país foram implementadas com recursos desse ministério.

Hoje existem dois PTs em Minas Gerais.

VEJA O CONVITEÉ possível unir o partido novamente?

Não existem dois PTs em Minas Gerais. Existe um único Partido dos Trabalhadores que estará no próximo ano completando 30 anos de existência e eu participei intensamente desses anos. O PT é um partido democrático, plural, que comporta, e mais do que comporta, estimula diferenças, divergências. É claro que entre nós há pessoas que pensam diferente, mas as afinidades são muito maiores. As diferenças são localizadas, são específicas. Agora eu penso que elas devem ser explicitadas. Quando acontecem prévias nos Estados Unidos – como foi com o Democrata ou mesmo quando o governador de Minas propõe prévias no PSDB, as prévias são consideradas bonitas. No PT é sempre visto como uma cisão. Não é cisão.

Então o sr. acha que o PT vai chegar unido nas eleições? Os petistas do grupo do Pimentel vão tomar cerveja numa mesma mesa com os petistas do grupo do sr.?

Da minha parte nós continuamos tomando cerveja juntos. Eu tenho a melhor e mais fraterna relação com o ex-prefeito. Nós devemos cada vez mais tornar realidade em Minas aquilo que dizem a nosso respeito: em Minas as ideias disputam, os projetos disputam, as pessoas se respeitam e convivem. Quando eu fui candidato em 1992 teve prévias no partido. Eu disputei com meus fraternos amigos Thomaz Matta Machado e Rogério Correia e, no dia seguinte às prévias, nós estávamos juntos, ombroa ombro, dando entrevista coletiva e iniciando a caminhada da era dos governos progressistas.

Existe, de fato, a possibilidade de fechar aquele acordo com o PMDB, no qual quem estiver melhor nas pesquisas na época das convenções – o sr. ou o ministro Hélio Costa – sai na cabeça-de-chapa?

Eu não quero entrar em muito detalhe de como deve ser feito. Acho que é muito cedo ainda, estamos a um ano e meio das eleições. Mas há um interesse nosso em buscar uma aliança com o PMDB. Na perspectiva de 2010, em Minas Gerais, eu penso que a nossa dinâmica deve ser primeiro garantir a unidade do Partido dos Trabalhadores; segundo garantir a unidade das forças democráticas, populares e progressistas. E nesta mesma linha, ampliar no sentido de incorporar, na medida do possível, todos os partidos da base aliada, onde o PMDB ocupa lugar de destaque. Eu tenho diálogo permanente com o ministro Hélio Costa, tenho conversado com parlamentares, lideranças do PMDB, estamos inclusive discutindo um projeto de desenvolvimento para Minas Gerais e penso que nós devemos envidar todos os esforços para estarmos juntos em 2010.

O sr. acredita que Minas Gerais pode ter dois palanques (do PT e do PMDB) para a candidata Dilma?

Acho que não seria aconselhável. Penso que as forças que hoje apoiam o presidente Lula, para ganhar as eleições em Minas Gerais, devem trabalhar na perspectiva da unidade. Dois palanques em Minas não será bom para as forças que querem fazer avançar o projeto democrático-social no estado e também talvez não seja bom para a própria candidata Dilma.


VEJA O CONVITE E se o vice da candidata Dilma for do PMDB e o PT nacional decidir que o PT de Minas não deve lançar candidato ao governo do estado?
Essa decisão deve ser cumprida?


Essa é uma questão que não está posta ainda. Isso faz parte do processo. Eu acho que neste momento é importante que os partidos apresentem seus nomes, até para mobilizar as nossas bases, nossos filiados, simpatizantes para estabelecermos o mais amplo diálogo com a sociedade mineira e brasileira. E no processo nós vamos conversando e há um prazo para que as coisas sejam definidas

Com a doença da ministra Dilma o sr. acha que muda alguma coisa na sucessão presidencial, já que outros nomes inclusive o do sr. já começam a ser especulados como alternativas do PT?

A ministra Dilma está muito bem do ponto de vista físico, psíquico e emocional. Ela está enfrentando uma doença que hoje é perfeitamente tratável. Penso, inclusive, que é um desrespeito com a ministra Dilma nós tratarmos desse assunto. Ela é mais do que a candidata do presidente Lula. Ela é, hoje, podemos dizer, a candidata do PT, que certamente vai unificar em torno de seu nome as forças políticas e sociais que apoiam o governo do presidente Lula. Quanto a mim, eu sou pré-candidato ao governo de Minas Gerais.

O PSDB diz que vai realizar prévias para escolher o candidato à Presidência da República. O PT deveria fazer o mesmo?

No PT a nossa candidata está definida: é a ministra Dilma Rousseff. Eu não vejo que as prévias sejam uma solução mágica e também que elas sejam um problema. Elas podem ou não ser utilizadas. É um instrumento. Se há um consenso em torno de um nome, o processo vai normalmente por meio das instâncias partidárias, se existem algumas divergências eu penso que o processo das prévias é absolutamente legítimo.

O sr. comanda o principal programa social do governo Lula, que atende quase 53 milhões de pessoas em todo o Brasil, mas que também é alvo de muitas críticas da oposição como, por exemplo, a de que é um programa eleitoreiro. O que pensa sobre essas críticas?

Primeiro, eu tenho ouvido de setores da oposição manifestações muito elogiosas às ações do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome e aos nossos programas, especialmente ao Bolsa- Família. Eu considero que as críticas mais duras são cada vez mais minoritárias e localizadas.

O que o ministério tem feito para evitar fraudes como as de pessoas que conseguem o benefício mesmo não possuindo os pré-requisitos necessários?

Nós temos convênios e parcerias com os Ministérios Públicos estaduais e federal e medidas concretas já foram e estão sendo tomadas. O cadastro único hoje é uma grande conquista da sociedade brasileira, porque temos o mapeamento dos pobres possibilitando, inclusive, uma maior integração das obras e das políticas sociais. É um cadastro que vai além do Bolsa-Família porque trabalha com a linha de renda de até três salários mínimos, são 16,5 milhões

 
Texto: Márcia Machado | Fotos: Adriano Machado
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